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O valor da paciência

31/07/2018

Nos últimos dois anos, o número de pessoas físicas na bolsa de valores deu um salto de mais de 20%, segundo dados da BM&F Bovespa. Desde a euforia da era Lula, quando os CPFs registrados chegaram a saltar mais de 50% em um ano, não se via tanta empolgação de investidores individuais em relação ao mercado de capitais.
 
“Como os juros caíram muito, aqueles que estavam razoavelmente confortáveis com uma rentabilidade de mais de 1% ao mês na renda fixa passaram a buscar outras coisas. E, quando a pessoa vê que a bolsa subiu bastante desde 2016, fala ‘puxa, eu quero isso!’, sem necessariamente levar em conta que rentabilidade passada não garante ganhos no futuro”, explica Michael Viriato, professor de finanças do Insper. 
 
Em busca de dinheiro rápido, muitos desses investidores de primeira viagem não ponderam os riscos envolvidos e acabam não suportando as oscilações características da renda variável. “A bolsa sobe no boato e cai no fato. Às vezes a pessoa física entra de maneira impulsiva, quando tudo está indo bem e segue recomendações de pessoas – ‘Ah, o fulano me indicou isso!’ – sem ter noção nenhuma de análise”, diz Glauco Legat, analista-chefe da corretora Spinelli.
 
São comuns no mercado anedotas de pessoas que venderam o carro ou o apartamento para comprar ativos de alto risco e terminaram sem nada. Aplicar a longo prazo em ações, porém, pode ser uma boa alternativa para objetivos como construir patrimônio ou montar um plano de aposentadoria, rendendo um bom dinheiro àqueles que conseguem esperar – seja na forma de dividendos, rendimentos que as empresas distribuem a seus acionistas, seja com a evolução da cotação do papel, que tende a acompanhar o lucro das companhias.
 
Existem várias estratégias, mas todas compartilham de uma característica: a paciência. Em vez de apostas ousadas, preconizam escolhas criteriosas. Para decidir o que comprar ou vender, não levam em consideração boatos e notícias, e sim análises de balanços das empresas. As dezenas de operações de compra e venda diárias dão lugar a poucas transações por ano. E, principalmente, em vez do enriquecimento instantâneo, pregam o crescimento gradual do patrimônio, com o reinvestimento do que se ganha ao longo dos anos. O ícone máximo desses investidores é Warren Buffet, octogenário que é a antítese da figura do Lobo de Wall Street.
 
Considerado um dos maiores investidores da história, ele acumula fortuna estimada em 80 bilhões de dólares, segundo a Forbes. À frente do fundo Berkshire Hathaway, ele estuda as empresas por meses a fio antes de comprar uma ação e dificilmente vende um papel que tenha comprado, mesmo que ele esteja passando por forte desvalorização. Sua filosofia se baseia em alguns pilares: diversificar empresas e setores para diluir o risco, escolher companhias que tenham boa saúde financeira, histórico de resultados positivos e baixa exposição a mudanças regulatórias, ignorar flutuações diárias de cotações e esperar o tempo passar.
 
Apelidado de “Buffet brasileiro”, Luiz Barsi, 80 anos, é o maior investidor individual do Brasil. Também é conhecido pelos hábitos frugais para uma pessoa que tem tanto dinheiro: morador de um bairro de classe média na zona leste paulistana, ele anda de transporte público e mantém seu escritório no nada glamouroso centro de São Paulo.
 
Barsi segue a mesma linha de pensamento de Buffett, e prega que o investidor gire pouco sua carteira. “Como não há cultura de investimento no Brasil, o camarada fica sensibilizado em comprar e vender, que é o que a maioria das instituições estimulam, porque querem ganhar dinheiro com corretagem, emolumentos e outras taxas”, critica. “Não conheço ninguém que ficou rico especulando. Se o cidadão gosta de jogo de azar, tudo bem. Só que eu sei que ele não vai ganhar dinheiro.”
 
Ele defende que o investidor escolha setores perenes, faça investimentos regulares e reinvista os dividendos que receber, para potencializar ganhos com juros compostos. “Temos que procurar empresas, e elas existem, que se sobreponham às crises. Elas sofrem, mas vão se sobrepor sempre”, diz. “Sendo a situação boa ou ruim, ninguém vai deixar de beber água, tomar banho, fazer um telefonema, abastecer o carro”, afirma.
 
Como escolher essas companhias? Há várias estratégias de longo prazo, mas duas delas têm ganhado muita popularidade em fóruns de internet, encontros de pequenos investidores e canais do YouTube: o value investing (em português, “investimento de valor”) e o buy and hold (“comprar e segurar”).
 
A primeira, explica Glauco Legat, analista-chefe da Spinelli, se baseia em procurar ações que, por questões conjunturais, estejam baratas e possam vir a se valorizar no médio e longo prazo. “O investidor estima, por meio de análise fundamentalista, o valor intrínseco de uma companhia. Se esse valor for maior do que o que está sendo praticado no mercado, há uma margem de segurança e ele compra a ação”, explica.
 
Já o buy and hold consiste fazer aportes constantes, sem levar tanto em consideração o preço, em ações que tenham bons fundamentos – governança corporativa, marca forte, pouco risco da entrada de novos concorrentes, baixa exposição a mudanças de regulamentação, bom fluxo de caixa, pouco endividamento, entre outros –, e só vendê-las se eles se deteriorarem. É comum que adeptos da abordagem mantenham papéis cujo valor se multiplicou durante décadas, sem vendê-los para realizar lucros, por considerarem que o investimento continua promissor.
 
As duas estratégias exigem conhecimento e, é claro, têm riscos. No caso do value investing, pode ser que o mercado nunca venha a identificar valor em uma ação que o investidor considere boa. “É o value trap (armadilha de valor), quando uma empresa considerada barata nunca deixe de ser barata, porque o mercado não vê valor nela”, explica Legat. No caso do buy and hold, o risco é não perceber a deterioração dos fundamentos da empresa a tempo. “Se a pessoa seguir muito à risca, pode segurar o papel por tempo demais. A Eternit é um exemplo: por muito tempo foi uma empresa com bons fundamentos, mas que perdeu as vantagens comparativas.” Antes queridinha dos investidores por pagar dividendos generosos, a fabricante de telhas viu suas ações desabarem com a proibição de sua principal matéria-prima, o amianto, pelo STF.

FONTE: https://veja.abril.com.br/economia/o-valor-da-paciencia-investir-sem-pressa-pode-render-um-bom-dinheiro/

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