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Sem chuva significativa, SP e interior caminham para 3ª crise hídrica do século com rodízios e multa para quem desperdiça

09/10/2021

GONÇALVES (MG) – A terceira crise hídrica deste século já está entre nós. E ela não chegou silenciosa, porque avisos não faltaram.

A cidade de São Paulo vê, dia após outro, seu maior reservatório de água seguir o mesmo caminho trilhado em 2013, quando ocorreu uma sequência de baixas no sistema, e a captação passou a ser feita no ano seguinte, no que ficou conhecido como “volume morto”, uma reserva localizada abaixo do nível das comportas.

O Cantareira abastece 7 milhões de pessoas ao dia e tem hoje 20% menos água do que havia em 2013. Neste mês, está operando com 29% de sua capacidade, nível mais baixo desde o colapso de cinco anos atrás.

A nova crise hídrica de 2021 é diferente dos eventos de 2014/2015 e 2003/2004. O país enfrenta hoje a pandemia de Covid-19, a responsável por matar 600 mil brasileiros, impactar a economia e trazer de volta o fantasma da fome.

O que se verá nos próximos meses serão duas crises sobrepostas, segundo os especialistas consultados pelo InfoMoney.

Também no interior do estado, achar água em quantidade suficiente já é uma dura realidade. Em São José do Rio Preto, 100 mil estão sob racionamento. Cidades como Itu e Franca tiveram que implantar rodízio para garantir um mínimo de abastecimento aos moradores.

Multas a quem mais desperdiça o líquido e campanhas para conscientizar a população também são estratégias para fazer entrar na cabeça da população uma certeza: água, se mal gerida, acaba.

Os sinais de que o nível dos reservatórios entraria neste ano em estado crítico já constavam nos relatórios do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

O órgão federal responsável por prevenir e gerenciar desastres naturais oriundos da seca e dos temporais havia dito que as chuvas de 2020 não foram suficientes para elevar o nível dos reservatórios.

Novos documentos do Cemaden voltaram a afirmar no segundo trimestre deste ano que uma estiagem prolongada impactaria ainda mais os bolsões de água do Centro-Sul do país.

Dito e feito: a escassez das reservas para o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já é a pior dos últimos 91 anos de monitoramento das bacias hidrográficas, com maior impacto para as localizadas na região Centro-Sul, onde o Cemaden emitiu os alertas.

Ter menos água nesses locais também prejudica a produção de 70% da energia elétrica gerada por hidrelétricas. Com as turbinas operando em baixa, o brasileiro foi obrigado a pagar uma tarifa de luz mais cara para arcar com as operações das termelétricas — mais custosas e poluentes.

E ouvir conselhos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que pediu, entre outras coisas, que a população evitasse usos de elevador e tomasse banho frio para o país não sofrer apagões generalizados.

Para o Inmet (órgão responsável pelas medições oficiais do clima no Brasil), as chuvas previstas nesta primavera também não serão capazes de tirar os reservatórios do limbo.

Tudo porque, segundo os meteorologistas, entre o final da primavera e ao longo do verão, a maior parte do país sofrerá uma estiagem prolongada devido à influência do La Niña, fenômeno que esfria as águas do Oceano Pacífico e embaralha o regime de chuvas na América do Sul.

Mesmo diante dos prognósticos da ciência, só nesta quinta-feira (7), uma primeira voz do governo de João Doria (PSDB) admitiu que a situação do estado é realmente crítica. “[Estamos] vivendo hoje uma situação de crise hídrica que se apresenta”, afirmou Marcos Penido, secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente.

A fala do secretário ocorreu durante o lançamento de um programa estadual noticiado em primeira mão pelo InfoMoney que prevê perfurar 138 poços artesianos para aumentar a capacidade de oferta de água em 120 municípios que enfrentam pressão no abastecimento.

Penido disse que aguardava uma nova crise hídrica só para os próximos 20, 30 ou 40 anos. “Passaram-se cinco anos e estamos novamente com esse mesmo dilema. Não podemos ficar de braços cruzados e ir atacando na emergência, fazendo medidas paliativas ou corretivas”, disse o secretário.

A manifestação de Penido não está na mesma frequência da Sabesp (companhia que administra os sistemas de água de 375 das 465 cidades paulistas).

A companhia não prevê desabastecimentos no momento na região metropolitana de São Paulo e nem em partes do interior e do litoral, apesar de admitir que “houve queda da vazão dos mananciais devido à falta de chuvas”, segundo trecho de nota.

A Sabesp projeta que os níveis dos reservatórios ficarão satisfatórios com as perspectivas de chuvas “do final da primavera e início do verão, quando a situação será reavaliada”.

E diz apostar no seu sistema integrado e flexível de transferência de água entre sete mananciais (legado da crise hídrica de 2014) para manter o abastecimento da região metropolitana de São Paulo.

Mas falta água. A proporção do que entrou no Sistema Cantareira era, até setembro, três vezes menor do que a quantidade que saiu para abastecer a população, segundo análise da própria empresa.

José Faggian, presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo) diz que a capital paulista já vive dias de “um racionamento técnico”. “Quem está sendo mais prejudicado por isso são os moradores das bordas e das regiões mais altas da cidade”, conta Faggian.

O representante do Sintaema afirma que a redução da pressão nos canos ao longo das madrugadas, manobra em vigor desde setembro, vem deixando as casas sem água por mais tempo. “Temos conhecimento de que a Sabesp tem levado água por caminhões-pipa nessas regiões afetadas”.

A redução de pressão antes ocorria a partir das 23h, mas foi antecipada para 21h, com término previsto às 5h, em todos os dias da semana. “A prática é recomendada internacionalmente: quando há menos consumo, reduz-se a pressão nas redes a fim de evitar perdas por vazamentos e rompimentos; quando o uso é retomado, a pressão é reajustada”, rebate a Sabesp, por nota.

Pedro Côrtes, professor de pós-graduação em ciência ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Universidade de São Paulo), diz que a crise que impacta os reservatórios, sobretudo, da Grande São Paulo, resulta da sobreposição de duas situações climáticas.

“Uma é o desmatamento acumulado, que vem diminuindo a corrente de umidade que passa pela Amazônia e chega ao Sudeste. A outra é a La Niña, que vai influenciar muito o nosso regime de chuvas”, afirma.

Côrtes diz que vai chover na primavera e no verão, mas, o acumulado de chuva das duas estações não vai fechar a conta. E, diante disso, a Sabesp e os municípios que têm seus serviços autônomos de água já deveriam estar com medidas mais enérgicas para lidar com o Golias que virá. “Negar o problema não vai fazer com que ele desapareça”, afirma Côrtes.

“A Sabesp já deveria ter admitido a crise e implantando medidas de racionamento na Grande São Paulo. Não vai dar para esperar até o final do ano, quando os prognósticos serão ainda piores, para agir. A gente viu que na crise de 2014, a população colaborou”, afirma o especialista.

Os moradores da cidade de  São Paulo passaram a economizar 12% de água na última crise; em São José do Rio Preto, o consumo também caiu 13% nos bairros em que, no momento, estão sob racionamento.

Veja abaixo as cidades paulistas mais impactadas com a falta de água.

Franca é a única com concessão da Sabesp sob rodízio

A cidade de 358 mil habitantes é a única, sob a gestão da Sabesp, que precisou adotar o rodízio de água, iniciado em 2 de setembro. A severa estiagem é apontada como a principal causa do problema e de uma tempestade de terra que “engoliu” a cidade recentemente.

Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), em todo o inverno deste ano, só choveu 10 mm na cidade — o menor índice aferido pelas estações do órgão no estado ao longo da estação.

O rodízio deixa partes da cidade com e sem água por 36 horas. A Sabesp diz que vem realizando uma série de ações para manter a distribuição de água para a população, com captações emergenciais e monitoramento dos usos dos irrigantes da bacia do rio Canoas, além de campanha de conscientização para a economia de água.

Mairinque cria patrulha para multar quem desperdiça água

Com 210 mil habitantes, a cidade criou uma patrulha para orientar e multar os moradores que desperdiçam água. A fiscalização é feita por guardas civis, servidores da prefeitura e agentes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros.

A pessoa flagrada desperdiçando água vai receber uma orientação e, depois, multa de até R$ 300. Se ela reincidir na prática, o valor da penalidade dobra e atinge os R$ 600. Mairinque é abastecida por dois mananciais — Fiscal e Carvalhal — que estão em nível crítico.

100 mil estão sob racionamento em São José do Rio Preto

São José do Rio Preto ficou 180 dias sem chuvas neste ano. A estiagem foi quebrada, segundo a prefeitura, no primeiro final de semana deste mês, com um acumulado de 28 mm de chuva.

Mesmo assim, o nível dos reservatórios locais segue crítico, e parte da cidade está sob racionamento desde maio. A população afetada beira os 100 mil e é abastecida pela ETA (Estação de Tratamento de Água) Palácio das Águas.

“A ETA diminuiu a captação de água no Rio Preto de 450 l/s para 300 l/s. O momento é de cautela. A população tem colaborado, mas não podemos descuidar”, disse, por nota, o departamento de água e esgoto do município.

A gestão de Edinho Araújo (MDB) informou ao InfoMoney que não existe previsão para o fim do racionamento. “Dependemos de uma boa quantidade de chuva”.

Em relação à fiscalização por desperdício, a prefeitura adotou como regra aplicar multar somente em caso de reincidência. Quando uma pessoa é flagrada cometendo desperdício de água pela primeira vez, é notificada e orientada a fazer o uso correto. Caso reincida em desperdiçar água cometendo uma infração, após a notificação, o usuário está passível de sanção pecuniária que alcança R$ 2.266,56.

Itu volta a viver dias difíceis com estiagem e rodízio severo

Os ituanos estão, desde julho, sob um severo rodízio de água. A medida começou no sistema 24h/24h (um dia de abastecimento e um dia sem). Mas a estiagem forçou a prefeitura a endurecer o rodízio: desde 20 de agosto, os 177 mil moradores têm um dia com água nas torneiras e outros dois sem.

A cidade também está aplicando multas aos moradores vistos em lavagens de calçada e carros com mangueiras. O valor da penalidade atinge os R4 489,68 (valor de uma ligação de água).

O serviço municipal de água afirmou ao InfoMoney que apesar de a estiagem deste ano ser pior do que a de 2014, o município investiu em captações de águas perenes.

“Desde 2018, a Companhia Ituana de Saneamento investiu em duas captações que não secam: sistemas Mombaça e Pirajibu. Com isso, temos 50% de nossa demanda por água garantidos. Os outros mananciais dependem da recarga da chuva”.

Sorocaba e mais dez cidades da região declaram alerta

Sorocaba e mais dez municípios estão sob estado alerta máximo devido à escassez de água que atinge os principais mananciais da região.

O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saee) informou que o Sistema Castelinho/Ferraz opera com 55% da capacidade total e o Sistema Ipaneminha, com 65%. O nível da represa de Itupararanga, que abastece 85% da população de Sorocaba, atingiu 22,18% de volume útil e preocupa.

Controlado pela Votorantim Energia, o reservatório já registrou índices semelhantes nos anos de 2003 e 2004, segundo dados da empresa dos últimos 20 anos.

A Votorantim Energia disse, por nota, que vem implementando medidas emergenciais sob a tutela do Comitê de Bacias Hidrográficas de Sorocaba e Médio Tietê que estabelecem as regras operacionais que permanecerão em vigor até que o volume útil do reservatório alcance 50% de sua capacidade.

“Entre as medidas estão a adoção do nível de 817,50m [21,23% do volume útil], como o nível mínimo operacional do reservatório e a redução da vazão de fluente para 3,5m³/s, já implementada. Do ponto de vista ambiental, a empresa vem mantendo o monitoramento constante do comportamento dos peixes e da qualidade da água para antecipar medidas a serem adotadas”, afirmou.

O alerta se estende às cidades de Alumínio, Cerquilho, Ibiúna, Laranjal Paulista, Mairinque, Piedade, Salto, São Roque e Votorantim.

Bauru vive sob rodízio há seis meses

O rodízio na cidade já dura seis meses e não tem previsão de acabar neste ano, segundo informou a prefeitura ao InfoMoney. O problema está na captação de água do rio Batalha, responsável por abastecer 40% da cidade, e que vem apresentando níveis de água cada vez mais baixos.

Para minimizar os impactos, a prefeitura sob a gestão de Suéllen Silva Rosim (Patriota) utiliza caminhões-pipa; projetos de instalação de poços artesianos também estão no radar da atual administração.

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Fonte: https://www.infomoney.com.br/mercados/sem-chuva-significativa-sp-e-interior-caminham-para-3a-crise-hidrica-do-seculo-com-rodizios-e-multa-para-quem-desperdica/